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Terça-feira, 20/08/2019 - 14h57

'Inventário do Caos' mistura objetos e histórias expressas nas 100 obras expostas na Galeria Trapiche

Mostra de Filipe Espindola fica em cartaz até o dia 13 de setembro, aberta para visitação de segunda a sexta-feira, das 14h às 19h, com entrada gratuita

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Da Redação - Agência São Luís

Inventário do Caos’ mistura objetos e histórias expressas nas 100 obras expostas na Galeria TrapicheAcumulador nato e de família de acumuladores, Filipe Espindola transformou objetos que guardava ao longo da vida em obras de arte. Com um acervo de mais de 200 exemplares, o artista selecionou 100 obras e está com a exposição inédita 'Inventário do Caos', em cartaz na Galeria Trapiche Santo Ângelo. A mostra fica até o dia 13 de setembro, aberta para visitação de segunda a sexta-feira, das 14h às 19h, com entrada gratuita. A Galeria, equipamento de cultura da Prefeitura de São Luís, fica localizada na Praia Grande, em frente ao Terminal de Integração.

Espindola é artista plástico e performer há 25 anos, residente no Maranhão desde 2017. Paulista de Botucatu, bacharel em artes visuais e adepto da Colagem como linguagem de criação em diversos suportes e técnicas. Também é membro do grupo NEOTAO Colagens e Performances e dos coletivos Studio Nômade, Norte Comum, Casa 24, Museu de Colagens Urbanas e Bloco Livre Reciclato. Participou de inúmeras exposições coletivas e realizou três exposições individuais em São Paulo, Rio de Janeiro e Maranhão, sendo esta a primeira com caráter de retrospectiva de sua trajetória como artista plástico.

As produções apresentam ossos, exoesqueletos de insetos, pequenas garrafas de bebida, folhas secas, folhetos de viagem, mapas, carcaças, restos, coisas colecionadas e selecionadas durante anos, peças avulsas de um jogo de xadrez, anúncios de orelhão, miniaturas, fotografias, memórias, cerâmicas, desenhos, livros de artista, esculturas e resíduos de performances, obras produzidas desde sua graduação em Artes Plásticas. A retrospectiva traz detalhes de coleções, uma parte importante de suas referências e modos de criar. "Isso de ser acumulador hoje em dia me pesa, pois tento ser uma pessoa nômade que não consegue mais andar de tanta coisa, então eu colo o excesso. Esta é a minha primeira exposição com caráter de retrospectiva, com minha fase paulista, carioca e maranhense, esta última agora mais recente", explicou Filipe.

As obras são uma mistura de objetos particulares do artista, alguns que foram coletados em caminhadas, outros da prateleira da família. São um universo de pequenas obsessões pela catalogação de objetos, composição de formas, texturas e volumes. "É interessante falar disso porque às vezes encontro pelo caminho fotos 3x4 de pessoas que nunca vi ou trechos de jornais, que eu vou usar em alguma colagem, são cacos de diferentes culturas e precisa ter muita responsabilidade na hora fazer esse cruzamento entre elas. Mas, em suma são objetos e histórias pessoais que trabalho para entender o meu acúmulo energético, de carga espiritual mesmo, as minhas origens indígena, negra e branca, as minhas referências de proteção, as minhas armas e fraquezas, tudo acabo trazendo para o meu trabalho", contou Filipe Espindola.

Tudo começou em abril do ano de 1994, quando Filipe iniciava a graduação em Artes Plásticas na Unicamp. Lá, conheceu três amigos que queriam formar um grupo de coladores, inspirados em referências do rock, capas de discos e de histórias em quadrinhos. O grupo expôs no Brasil inteiro, de 1997 a 2003, adotando um formato que envolvia colagens e performances que Espindola segue até hoje. Na abertura de 'Inventário do Caos', por exemplo, ele inaugurou a exposição e fez a performance 'Disface', em que realizou uma colagem corporal ao vivo na também artista visual, Márcia de Aquino.

"A colagem corporal se dá na aplicação da colagem sobre o corpo de alguém, que interpreta isso a sua maneira. Eu tentei não perguntar o que ele pretende fazer, até para deixar o corpo mais disponível, deixar o artista mais livre para criar e viver o momento", frisou Márcia de Aquino. O nome da performance 'Disfarce', é uma tomada da canção de mesmo nome de Sérgio Sá (1978), música eternizada na voz de Diana Pequeno, sobre as máscaras frias usadas para suportar os dias sombrios da ditadura militar, que já somam mais de 50 anos no Brasil. A performance foi embalada ao som do vinil de Diana tocando na vitrola.

TEMAS

Com destaque para as assemblages e colagens bidimensionais, cada obra segue um tema e uma linha estética, como explica o artista. "Quando quero falar sobre algo vou atrás de objetos que possa utilizar naquele tema, mas também acabo incorporando alguns por cromatismo, por conta de certa cor que tem semelhança ou volume. Então, algumas escolhas são estéticas. Pode acontecer ainda de um objeto mudar o rumo daquilo que eu pretendia falar inicialmente", observa Filipe.

Ainda segundo o artista, o acúmulo a objetos é uma prática que pode estar em qualquer região ou período, mesmo hoje as pessoas evidenciando o gosto pelo minimalismo. "Esta tendência de gostar do minimalismo e se esforçar para chegar ao mínimo, podemos dizer que é uma onda do momento. Porém a arte não para, o acumulo é algo natural, assim como o descarte. O que eu tento fazer é apenas prolongar um pouco mais a sobrevida daqueles objetos para que eles digam algo a mais, por mais tempo. Me baseio em relicários, narrativas, oratórias, que tem uma relação sagrada e que contam uma história".

O professor de Artes Visuais, da UFMA, Alexandre Mourão já conhecia o trabalho de Filipe Espindola e gostou bastante da exposição inédita. "É uma temática que se incorpora a diversas linguagens na produção artística, como colagem, pintura e gravura. Isto dialoga muito com a ideia da arte contemporânea, que traz diferentes tipos de produções em um campo multidisciplinar e, ao mesmo tempo, tem o vínculo com a lembrança dele, é muito afetiva também. Em cada trabalho individual você sente algo, tem uma carga da memória. Então, é bem forte ver cada uma das obras. É interessante por ser um tipo de produção que não é comum de ser ver, são anos de dedicação e também conseguimos perceber o efeito do tempo nas peças", disse.

Todas as obras expostas na Galeria Trapiche estão a venda e podem ser adquiridas com o próprio artista. Com seu acervo já formado, hoje ele diz não se preocupar em passa-las adiante. Além dos trabalhos prontos, Espíndola também faz por encomenda a partir de acervos pessoais, como transformar fotos de família em um trabalho artístico ou o que ele chama de 'Faxina Cultural', que consiste em organizar acervos ou coisas que seriam descartadas, coleções, quinquilharias, badulaques, e em que dará um destino artístico para estes objetos.

Entre as preferidas de sua coleção está a obra 'Odaraiá - Alegre e vivaz' que fez quando o filho Txai nasceu, há dois anos. "As obras mais recentes são sempre as que mais gosto, talvez pelo momento que esteja vivendo, são os filhos mais novos. Mas, essa que fiz para o meu filho está entre as que mais gosto. A princípio o nome dele seria Odaraiá, que significa Alegre e vivaz, que deu nome à obra. Elas também não são fechadas, tem algumas que vou colando e recolando, modificando durante décadas. Algumas têm objetos perecíveis que se deterioram e precisam ser substituídos depois. Não são totalmente fixas, quando faço outra exposição elas voltam com algo novo", completou Espindola.Entre as preferidas do artista está a obra ‘Odaraiá - Alegre e vivás’ que fez quando o filho Txai nasceu, há dois anos.

A mostra tem curadoria de SaraElton Panamby, expografia de Dinho Araújo e performance de Márcia de Aquino e Filipe Espindola. O expógrafo Dinho Araújo ressaltou alguns pontos fortes do trabalho do artista. "A cidade ganha com uma exposição assim, porque oportuniza uma diversificação dos repertórios, além de vermos um amadurecimento nos modos de montagem de exposições, porque o Filipe além de ser um artista visual é também montador. Existe um trabalho de elaboração, desde a pesquisa que ele desenvolve, o modo como ele se apropria de objetos, a forma muito original de pensar colagens, as assemblages, a delicadeza de organizar a precariedade desses materiais e a utilização de um certo refinamento estético. Ele se vale da empatia de materiais de um modo muito complexo de relatar um texto, percebendo coisas que estão subtendidas nos objetos, nas imagens, memórias, arquivos. É um trabalho de catalogação, de guardar muitas referências que depois ele vai costurando".

Juntos, eles pensaram como é possível apresentar o conteúdo aos apreciadores, organizando o acervo em caráter de retrospectiva. "Nós sentamos com a curadoria para fazer a seleção das obras, em que tentamos percorrer as fases que o Filipe pontuou como mais relevantes da sua trajetória. O trabalho dele é muito especial e diferente de tudo que eu já vi, embora dê prosseguimento a processos e experimentações que são feitas desde a vanguarda, outros artistas já inserem o elemento tridimensional, o próprio Picasso fez isso, mas o modo como o Espindola faz é único, ativa a memória e uma narrativa não linear. Tem uma riqueza de detalhes, profundidade, que faz com que a gente olhe várias vezes, reveja e tente capturar algo, e cada vez percebemos algo novo", diz Dinho Araújo.

OCUPAÇÃO

"Esta é a 15ª edição da Ocupação Trapiche, um projeto permanente como forma de disponibilizar este equipamento público a todos que tenham interesse em expor trabalhos em qualquer categoria do campo das artes visuais. As produções são em sua maioria selecionados por chamada pública nacional, que permite ampliarmos o catálogo de obras que circulam em São Luís, pois atrai a participação de artistas de todo país. Esta exposição, entretanto, é um convite da direção da Galeria ao artista, que é outra forma que temos de movimentar este espaço. Queremos que a Galeria seja este local de agregar coisas positivas à cidade, o trabalho do Filipe apresenta uma nova técnica que não temos aqui e a proposta é que possamos fazer oficinas e ações formativas aos artistas ludovicenses", explicou a diretora da Galeria, Camila Grimaldi.

Ainda segundo a diretora, 'Inventário do Caos' é uma das maiores exposições que a Galeria já recebeu quem questão de quantidade de obras. "É realmente um trabalho surpreendente e ficamos felizes em receber esta exposição inédita. Um dos nossos objetivos é fomentar e incentivar a produção local em artes visuais, por meio da realização de exposições e divulgação de trabalhos artísticos, proporcionando à sociedade mostras relevantes e de qualidade reconhecida, além do intercâmbio entre artistas de São Luís com os de outras regiões", destacou Grimaldi.

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